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Todos nós desconhecidos - Cinema LGBT

  • Foto do escritor: Guilhermis Camargo
    Guilhermis Camargo
  • 25 de fev.
  • 2 min de leitura

Precisamos revisitar nossos fantasmas para finalmente poder nos aproximar de alguém de verdade.


Assisti Todos Nós Desconhecidos (All of us Strangers) e fiquei com ele na cebeça por dias. O filme acompanha Adam, um homem gay que vive sozinho e que ao se aproximar de um vizinho começa a revisitar a casa dos pais falecidos. É uma narrativa delicada e profundamente íntima sobre como a solidão se instala quando a intimidade não pôde se formar.



O que mais me atravessou no filme foi como ele aborda a temática da solidão do homem gay. Existe uma expectativa cultural de que homens sejam contidos, autossuficientes e pouco afetivos, mas quando essa expectativa é atravessada pela experiência de crescer sendo gay em um mundo heteronormativo, ela ganha outra camada: o medo constante de ser rejeitado e de decepcionar.


Mesmo com os pais mortos, Adam ainda precisa, de alguma maneira, “sair do armário” para eles. Ele carrega a expectativa parental dentro de si, a dúvida sobre se teria sido amado por inteiro. E isso me parece extremamente verdadeiro: às vezes não é a presença real do outro que nos aprisiona, mas a representação que construímos deles.


Na estória o luto surge pela morte dos pais, pelo que não pôde ser vivido e pela versão de si mesmo que ele imagina que poderia ter existido. Ao longo do filme, me parece que Adam tenta ensaiar a intimidade. Ele retorna à infância como um movimento de elaboração, experimentar aquilo que não pôde viver para conseguir se aproximar de alguém no presente. O romance que surge não é uma solução mágica nem uma cura romântica; é uma oportunidade de contato. Um espaço onde ele começa a tocar o medo e a vulnerabilidade.


Existe algo muito sensível na forma como o filme mostra que a intimidade, para alguns homens, é quase assustadora demais para ser vivida sem anestesia. Talvez o filme diga que amar, especialmente quando se cresceu sentindo-se deslocado ou inadequado, exige um trabalho de memória. Porque nossa relação com o passado não é estática, ela é construída e reconstruída.


Para mim, “Todos Nós Desconhecidos” é um filme sobre a dificuldade de desenvolver intimidade quando fomos ensinados a sobreviver sozinhos. Sobre o medo de não ser aceito, mesmo quando ninguém mais está ali para rejeitar. E sobre como, às vezes, precisamos revisitar nossos fantasmas para finalmente poder nos aproximar de alguém de verdade.


Até mais, Guis.

 
 
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Guilhermis Idalino da Silva Camargo - Psicólogo - CRP 14/09031-8

©2023 por Psicólogo Guilhermis Camargo

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