A promessa do novo Eu
- Guilhermis Camargo

- 21 de mai.
- 2 min de leitura
Série "Mudanças Possíveis"
Existe uma cena que se repete quase todos os anos. Em algum momento, geralmente perto de uma virada de ciclo, começamos a acreditar que finalmente vamos conseguir nos tornar a versão de nós mesmos que imaginamos há tanto tempo. Fazemos listas, organizamos metas, compramos agendas, criamos planejamentos e alimentamos a sensação de que, agora sim, tudo vai mudar. É como se existisse uma expectativa silenciosa de que uma nova fase da vida exigisse também uma nova identidade.

O problema é que, muitas vezes, aquilo que chamamos de mudança não é exatamente um desejo de transformação, mas uma tentativa de escapar de quem somos hoje. A ideia do “novo Eu” costuma carregar uma promessa de correção: ser mais disciplinado, mais organizado, mais produtivo, mais estável emocionalmente, mais funcional. E, sem perceber, começamos a olhar para nossa versão atual quase como um erro temporário que precisa ser superado o mais rápido possível.
Talvez seja justamente aí que muitas mudanças fracassem antes mesmo de começar.
Vivemos em um tempo com uma cultura que transformou a vida em um projeto contínuo de otimização. Descansar parece perda de tempo. Dificuldade emocional vira falta de esforço. Limites são tratados como fraqueza. Nesse cenário, mudar deixa de ser um processo humano e passa a funcionar como obrigação moral. Quando alguém não consegue sustentar uma nova rotina ou abandona uma meta depois de algumas semanas, a conclusão quase sempre recai sobre o indivíduo: faltou disciplina, foco ou força de vontade.
Raramente paramos para questionar se a própria expectativa não era violenta.
Na clínica, isso aparece de formas muito cotidianas. Pessoas que tentam mudar completamente a própria vida de uma vez só. Alguém que decide reorganizar alimentação, sono, produtividade, corpo, estudos, relacionamentos e saúde mental ao mesmo tempo, como se existisse uma urgência permanente em finalmente “virar alguém melhor”. O sofrimento surge porque, no fundo, essas mudanças não partem de cuidado, mas de rejeição. Como se a vida só pudesse começar depois da transformação.
Mas mudanças reais dificilmente acontecem dessa maneira grandiosa que imaginamos. Ninguém acorda sendo outra pessoa. O que geralmente muda primeiro são pequenas formas de responder à vida. Às vezes, a mudança aparece quando alguém consegue descansar sem tanta culpa, quando inicia uma tarefa antes de se sentir completamente pronto ou quando percebe mais cedo que está ultrapassando os próprios limites. São alterações discretas, pouco espetaculares, e talvez por isso muita gente desista delas cedo demais. Elas não alimentam a fantasia de renascimento total que aprendemos a desejar.
Existe uma armadilha muito dolorosa na ideia do “novo Eu”: ela faz parecer que nossa versão atual não é digna de cuidado. Como se só pudéssemos viver melhor depois de merecer isso. Só que quase ninguém consegue sustentar transformações construídas em cima de vergonha, humilhação ou ódio de si. Mudanças que nascem da tentativa de se destruir costumam produzir apenas mais exaustão.
O problema não é a incapacidade de mudar, mas a crença de que mudar significa deixar de ser quem se é. Existe algo mais humano em pensar a mudança não como substituição de identidade, mas como construção gradual de novas formas de existir sem precisar declarar guerra contra si mesmo.


